Domingo, Janeiro 3

Procura-se

A primeira noite do ano me trouxe uma angústia no peito. Já sabia o que era sem saber.
As coisas estão perdendo o sentido. Os dias estão se misturando, os ponteiros do relógio já não demarcam tempo algum. Me questiono o porque de fazer cada coisa e não encontro resposta para a maioria delas.
Isso ficou claro para mim durante as comemorações de natal e ano novo. Deve ser porque vou contra uma série de coisas - o lance do consumo em datas festivas, do dia marcado para reunir a família, da possibilidade falsa e equivocada de recomeçar. É revoltante ver um mundo colorido, brilhante e completamente oco - nem para os que enfeitam as árvores, nem para os que apenas espiam decorações alheias. Nada disso desperta reflexão, reconhecimento, nada; é tudo vazio de significado.

Tem gente que acredita que a comemoração do nascimento do Jesus torna essa época mais terna, com mais perdão, compaixão, solidariedade. Minha cabeça fica cheia de ecos sobre o absurdo real e contraditório da crença em uma pessoa que morreu por nós, que vive em nós e ainda assim, só se manifesta uma vez ao ano perante sua contribuição monetária piedosa para alguma causa xis - não por solidariedade ou engajamento, mas culpa e egoísmo de não suportar a própria imagem de lobo mau não contribuidor. Ninguém se importa se o "recebedor" é um parasita, um necessitado ou um mero acaso preguiçoso do destino. Merecer não tem valor.

Não sei dizer se  é ilusão, se estou imaginando coisas, se estou vendo coisas demais, se isso é mais uma faceta da vida real desvendada para mim. Só sei que me dá uma tristeza imensa não encontrar um jeito de acalmar o coração, de viver tensa e na expectativa de uma resposta que me traga um pouco de paz de espírito, que mostre um pouco de sentido às coisas. Sinto que ainda é preciso aprender muito, agir melhor, ser muito mais retilínea para ter o direito de cobrar o ângulo reto. Ainda é preciso sentir o gosto da terra e descobrir o quão frágil é a casca que habitamos. Ainda é preciso nascer todos os dias, em cada um deles.
Ah, como nascer é longo...

2 catchers:

LETÍCIA disse...

Amei o seu texto, parabéns!

Amanda Cordeiro disse...

Talvez seja tão cheio de informações que a gente não enxerga nem ouve nada!

Como borrão de tinta que a gente mistura sem querer numa cartolina, como uma cacofonia.

Talvez seja vazio porque apesar de todo mundo ser cheio de intenções, planos e esperanças, ninguém levanta um dedo. Talvez estejamos todos dentro de uma solitária. E nascer talvez seja sair dela.

Talvez o tempo seja um marcador de momentos sem sentido. E ele nos condiciona a ficar dentro dessa solitária.

(não tenho a mínima pretensão de fazer sentido ou de dizer algo bonito)