Domingo, Novembro 8

Carta à querida

Dá pra sentir que as coisas mudaram, agora mais do que nunca. Fico pensando no que foi e no que é, às vezes lamento, achando que faria diferente. Mas quando paro e penso de verdade, vejo que apenas sinto falta da garota que era e não sou mais. Porque ela cresceu: é mais séria, menos risonha e com a carapaça da experiência um pouco maior. Rabugenta, cética, realista. Irônica. Paga contas, tem responsabilidades, é capaz de ver a vida como ela é, sem firulas. E às vezes é muito cansativo para alguém de apenas 20 anos. Na maior parte do tempo, é como se tivesse 40: tudo árido, seco, um tédio. Choro, converso, escrevo; e aí vejo que tudo isso, esse turbilhão de sentimentos, medos e mudanças é o mundo adulto, apenas o início dele. E que para resistir a ele sem ficar louco, tudo que a gente precisa é que algumas pessoas que gostem de nós pelo que somos, sem maquiagem, perfume, dinheiro; nu com a mão no bolso. Aí sim dá pra levantar da cama e ir viver a vida, um dia de cada vez, na santa paz de Deus.


Ps: resultado de umas cervejas num domingo à noite: tentativa de carta à amiga desaparecida, lágrimas e desistência mental.  

Ps2: leitores, me desculpem a falta de criatividade. Sei que os últimos posts foram "davidaeureclamo.com", mas não posso evitar. Essas coisas me entalam na garganta a ponto do caso da saia curta da garota da Uniban se tornem totalmente irrelevantes (o que de fato são).

Terça-feira, Outubro 27

5 dias por semana

Todos os dias, indo trabalhar, passo pela mesma calçada. Aliás, várias calçadas, mas essa é especial. Ela é roxa. É um roxo quase preto, de restos de amoras que impregnaram o asfalto.
Todos os dias eu olho para cima na esperança de saciar a água na boca. Mas não, eu sempre esqueço que essas amoreiras medem mais de 2 metros de altura, e essas amoras que estão no chão, plagh, já eram. E aí eu penso que poderia pegá-las, mas meus dedos e lábios denunciariam. Continuo a marcha forçada, sentindo aqueles cheiros que só aquele lugar tem, aqueles ruídos metálicos, de motor carregando peso, de óleo de máquina, de desodorante, de homem suado. Cheiro de borracha, de poeira e de gasolina. Os toc tocs do salto denunciam a passagem no corredor gigante e tantas vezes vazio. Um galpão enorme, cinza, cheio de peças de empilhar chapas jogados às traças. Medonho, sempre imagino um zumbi se arrastando por ali, ou ratos de olhos vermelhos se esgueirando sorrateiros entre as sombras.
No meio desse corredor tem uma abertura enorme para os carros. É terrível quando está assim como hoje, enevoado e com um garoa fininha. Parece que a umidade entra até os ossos, e são várias as oportunidades para isso. Nunca peguei tanta garoa e chuva, nunca senti tanto frio quanto lá.
Vejo aqueles prédios monstruosamente antigos, com os tijolinhos desbotando, e sempre imagino as pessoas de 50 anos atrás circulando por ali. Os absurdos que acontecem hoje, o que acontecia na época. E novamente, sempre me vem a cabeça os fantasmas e os zumbis.
Abaixo a cabeça. Tem um horda de azuis à minha frente, despertados da hipnose do quadro de ofertas de semi-novos pelo compasso dos meus pés. Nunca ouvi nada que não desejasse, e talvez nessas horas fico insconscientemente surda. O buraco de sentimentos paira ao meu redor em espirais fumacentas.
O cheiro de lá é tão característico quanto uma escola primária. Não que seja ruim, pelo contrário. Ele só me mostra a realidade, a mais dura delas: a que eu não sou aquela que eu imaginava ser. Não estou pronta. O tempo nunca foi a meu favor, eu sempre tive que me virar. Mas desta vez, além de não estar pronta, sinto forças que me levaram até lá por acaso me amarrarem de propósito.
O tempo passa. Alguns dias mais rápido, outros menos. A raiva e o tédio já se mesclaram o suficiente para que eu veja pouco além do carpete cinza do chão. E ainda assim, aquela sensação de tantas outras faces internas que apenas observam com os enormes olhos secretos.
Sei o que me aguarda no fim do dia. Um ônibus quente, confortável e algumas páginas de Herrmann Hesse pra refletir. Refletir sobre a vida, o futuro, e as amoras suculentas sendo esmagadas no chão.

Quinta-feira, Outubro 1

Hibernar

A realidade de que o certo é comprado pelo cômodo e por cifras que eu não dá  para imaginar  incomoda,  desperta aquela coisa. Coisa de gritar que está errado e que não dá para ser parte disso. Coisa de subsersão, perspicácia, uma rapidez na compreensão do mundo.
Mas não. Quanto mais força, menos preparo. Quanto mais vontade, mais forças que parecem coagir para atar as mãos, a língua, o cérebro. A desconfiança tão sutil e presente que daria para carregá-la nos braços. No fim, ela sempre se mostra certa.

Uma visão tão rápida de olhares, gestos, tamborilar de dedos. E ainda assim a agonia de apenas desconfiar e a interpretação ser falha. A angústia de não saber. A idealização de um auto-ego que não existe. A admissão das inúmeras falhas, até aquelas que existem só na mente conturbada que consegue se focar até quando o whisky extrapola e volta à garganta.
 Tudo isso me dá uma saudade de quando tudo era só um abraço ingênuo, gentil e com cheiro de sabonete. Quando a própria vida tinha uma aura de risos e little joy sem que ninguém percebesse. Quando acertar um cálculo de álgebra era vitória pra um mês. Quando as certezas eram maiores que as dúvidas, meros fantasmas de tule. E sim, tudo isso vira gota. Salgada de rachar os lábios mordidos. Chora viola! Viola de olhos inchados até com o desenho do Tarzan.

Hoje é só trapo, farrapo de alguém que um dia sentiu todo o poder pulsando nas veias.
Olhos embaçados em meio a líquidos que já não queimam na garganta, a fumaças que o pulmão aceita e até pede às vezes. Algo de Hermann Hesse, as escolhas de todo dia, o bem e o mal com um pouco de limão, saúde.
Talvez tudo seja uma fase, quem sabe.
Todo um mundo apenas esperando o momento certo para sair da toca.



Uma imagem vale mais que ..........................
(figura de A Print a Day)

Sábado, Setembro 5

"Faz você!"

Não, nem é preciso ligar o botão F para ser mais feliz. Às vezes é preciso bem menos, como a resposta acima, que sempre insiste em vir à tona na hora mais oportuna possível. Se você quiser ficar sem emprego, sem mãe, sem namorado, é claro. E a coragem? E a felicidade e a audácia correndo nas veias, libertando todas as mágoas e trazendo aquele sorrisinho cínico no rosto?
 Se livrar do pedido, qualquer que seja ele, é tão libertador! Mais do que um palavrão quando aquele imbecil de carro engasgado te fecha no trânsito das 7 da noite. Mais do que mostrar o seu dedo do meio, num gesto incrivelmente saudoso e recorrente da 6ªA, praquele seu amigo que ta enchendo o saldou negativo do que sobrou da sua paciência.
Minha vida tem se resumido, nas últimas semanas, em coisas simplórias, toscas e indignificantes, como imprimir e rasgar papel e sorrir pra meia dúzia de rostos que nada fazem para merecer o meu sorriso. Mereceriam, no máximo, um bocejo bem dado, daquele que se vê a campainha vermelha balançando no alto da boca.Tenho visto gente preguiçosa, gente incompetente, gente desmotivada. Um sistema que não funciona e uma propaganda muito bem feita, afirmando justamente o contrário. E ai de nós, meros jovenzinhos sem experiência de vida, que temos que andar com uma bola de cristal no bolso e dar as risadinhas de puxar saco na hora certa!
Espero ansiosamente pelos dias punks de trabalho. Pelo dia que vou poder falar calmamente, e ainda assim esfragando bem na cara de alguém que eu sei sim, algo importante, que ele/ela não sabe. Pelo dia que estarei certa, decidida e inconvencível, com todos os anjos e suas respectivas cornetinhas do meu lado para anunciar uma nova fase de mim mesma: dona do meu próprio nariz, com todas as apólices e ações majoritárias.



Porque ser totalitário de vez em quando mantém a pele jovem e o coração mais feliz.

Sexta-feira, Agosto 21

New found driver

"Deve ser o sedentarismo". É isso que me vem à cabeça quando a perna da embreagem começa a tremer inteira, depois de meia hora no volante e muitos motoqueiros me deixando surda ali na Perimetral. Estava chovendo naquela terça-feira, e que maldito barulho faz os pára-brisas quando eu estou nervosa. Não era por nada, era apenas a primeira vez de muitas. Com chuva, trânsito, tempo apertado e pouco combustível.

Nessa noite eu domei as mãos que insistiam em tremer no volante e aumentei o Nashville Pussy até os vizinhos tentarem adivinhar quem estava no carro ao lado, de vidros fechados e um som agressivo saindo pelas bordas. Mas aí, cinco minutos depois, eu só precisava de paz, e aquilo atrapalhava a concentração. Elvis era mais calmo e eu finalmente conseguia cantar. Bem horrivelmente, como sempre, mas cantava e dirigia como se tivesse o feito a vida inteira. Como se nos pés todos os limites ficassem mais claros, e, nas mãos, o desafio de trocar rápido as marchas e não sentir o tranco do carro. E mais ainda, sentir que eu podia. Ihu! Um amor à 56.475.128 vista.

O mais gostoso ainda é chegar inteira onde eu tinha que ir, fazer a manobrinha bacana (que, btw, vai pro checklist de "melhore já") e ouvir o "pipip" do alarme (eu prefiro o "tûp" dos VW, mas ainda estou looooonge disso rs). E sim, eu ainda sonho com aquela Dodge Ram cabine dupla espetarcularmente vermelha... ^^














Uma "graffa" de picape: sutil, discreta e multiuso, rs.
(Meu aniversário já passou,mas sempre ta valendo!)
=]

Sábado, Agosto 15

O que faz você feliz?

Essa vida é engraçada né. Grande constatação!

Aquela sensação que me faz levantar a sobrancelha todos os dias ao descobrir conexões bizarras entre as pessoas que conheço ou já ouvi falar. Receber uma ligação gostosa e totalmente inesperada. Ver a preocupação e a consideração de pessoas que eu não achava que as tinham. Balançar os ombros por não receber o que eu esperava, o que tecnicamente era óbvio de se esperar de algumas determinadas pessoas.

Mas o melhor mesmo é o que está bem escondido e selado dentro de caixinhas pretas, aquelas que você não espera nada. E aí elas se abrem e começa uma festa de purpurina, um mundo que brilha e que significa, sem que antes eu soubesse que existia. A transmissão virtual de sovas eternas, barris e mais barris de cerveja, potes de biscoito, sacas de brigadeiro, da importância classificada em dedos do Lula, de manter o sorriso, a mudança, além dos eventuais paz, amor, felicidade, saúde e sucesso, sempre me trazem um punhado de gargalhadas. Além de descobrir que alguém sente saudades quando vê a antiga mesa do meu trabalho vazia.

Obrigada aos amigos e amores que tornaram minha quinta feira resplandescente. Aos comentários levemente invejosos que sempre me fazem gargalhar. A tudo que me faz sentir o quão indispensável, para o bem ou para o mau, eu sou.

Ps: porque ninguém deseja que o outro fique rico até os joelhos?! huahauhauhuahua... Tá bom vai, pode ser em moedinhas de chocolate... nham ^^



Rolling
on
floor
laughing
since
1989!

Yaay!

=]

Quinta-feira, Agosto 6

PS AOS (POUCOS) LEITORES: Queridos, não tem jeito mesmo. Os textos vão demorar cada vez mais pra sair porque meu tempo ta minúsculo... Agradeço a expectativa de alguns ("quando vc vai postar o texto no seu bloooog?"), o elogio de outros e as críticas de alguns outros ("isso não é Helô/isso é"). Obrigada pelo apoio, pelo interesse e pela paciência com essa admiradora relapsa do dia a dia. Beijos gerais, eu.